As etapas da mudança no processo de recuperação da dependência química
A mudança começa antes da decisão
Parar de usar a substância pode até ser o primeiro passo, mas isso ainda não é recuperação. A recuperação da dependência química não acontece de forma imediata.
A mudança, quase sempre, é um processo gradual, que envolve refletir sobre decisões que serão realizadas ao longo do tempo. A maneira de percorrer esse caminho é única para cada pessoa, respeitando o ritmo, as experiencias e as possibilidades naquele momento de vida.
Existe um modelo bastante utilizado em saúde mental e recuperação em dependência química, para compreender os processos de mudança. É o “Modelo Transteórico de Mudança”, desenvolvido por James O. Prochaska e C.DiClemente.
Esse modelo descreve as etapas da mudança, mostrando como as pessoas passam por diferentes momentos até conseguirem realmente transformar um comportamento/problema.
Compreender essas etapas da mudança, pode nos ajudar a olhar para a recuperação de uma forma muito mais clara, respeitando nosso próprio momento e trazendo realismo a nossa condição.
A primeira etapa do modelo se chama “PRÉ-CONTEMPLAÇÃO”, e é conhecido caracteristicamente, pela falta de reconhecimento de que existe um problema, o que torna difícil a busca por ajuda.
- Nessa etapa, é comum que a pessoa minimize a gravidade que o uso de substâncias tem para ela, não percebendo os danos e as consequências geradas. Isso não significa diretamente, falta de interesse, ou baixa força de vontade. Na verdade, esse é apenas o início do processo de mudança, que se bem trabalhado pode evoluir para a próxima etapa.
- Nessa etapa, se faz importante o contato com espaços de escuta e acolhimento, permitindo que a pessoa consiga fazer reflexões sobre sua própria história e sobre o real impacto que aquele comportamento pode estar causando em sua vida.
Quando surge a dúvida e a reflexão
Com o passar do tempo, muitas pessoas entram em uma fase chamada “CONTEMPLAÇÃO”.
- É nessa fase que a pessoa começa a associar prejuízos com comportamentos. Aqui começa a surgir uma percepção de que existe alguma coisa que precisa mudar.
- Esse período é marcado por ambivalência. Os pensamentos de mudança são contrapostos que a vontade de permanecer como esta, a consciência de que o comportamento pode estar trazendo consequências difíceis é confrontado com ideia do que se perderia se mudasse.
- Essa etapa é extremamente importante, pois é aqui que acontece as reflexões mais profundas, fazendo com que o desejo pela mudança ganhe força.
O momento de se preparar para mudar
Essa é a etapa da “PREPARAÇÃO”. É aqui que a pessoa passa a considerar seriamente a possibilidade de transformação. Nada de muito concreto acontece, mas a pessoa passa a procurar informações, passa a conversar sobre a mudança pensada com pessoas de sua confiança, e até mesmo a procurar apoio profissional, ainda que discreto.
- É nesse momento que muitas pessoas ingressam nos grupos terapêuticos. Os caminhos que possibilitam mudança começam a ser construídos, e a pessoa passa a olhar para a sua realidade com mais atenção.
- É aqui que quilo que chamamos de recuperação começa a ganhar uma direção mais objetiva.
Quando a mudança começa a acontecer
Nessa etapa, começasse a “AÇÃO”. Aqui, todas as reflexões, informações e estratégias pensadas, passam a ser traduzidas em mudanças concretas na vida da pessoa.
- As ações práticas nesse caso, podem envolver o interrompimento ou a redução do uso de substâncias, a modificação das rotinas, o fortalecimento de vínculos e até mesmo, participar ativamente de alguns programas terapêuticos de tratamento.
- Essa etapa exige que a pessoa tenha apoio próximo, compreensão e um ambiente seguro. O esforço emocional que demandam essas mudanças, necessita de espaços legítimos de acolhimento e escuta, fundamentais para que a pessoa encontre novas formas de lidar com os desafios do dia a dia.
Sustentar a mudança ao longo do tempo
Após as primeiras mudanças, vem a etapa de “MANUTENÇÃO”. Depois de um longo esforço para colocar as estratégias de mudança em prática, precisamos nos focar agora no fortalecimento daquilo que foi conquistado, e assim, continuar desenvolvendo recursos para continuar avançando e seguindo em frente.
- Mesmo que o interrompimento de um comportamento seja um alvo a ser alcançado, e até esperado no processo, apenas interromper um comportamento não é recuperação.
- Recuperação é além do interrompimento, a reconstrução de aspectos importantes da vida, como relacionamentos, autoestima, projetos pessoais, desenvolvimento de habilidades sociais e equilíbrio emocional.
- É um processo que acontece gradualmente e requer paciência e continuidade.
A recaída como parte possível do processo
E como em toda mudança, é possível que antigos hábitos e comportamentos retornem depois de um período de tempo. No modelo Transteórico essa etapa é chamada de “RECAÍDA”.
- Na compreensão do modelo de mudança, o retorno a sintomas que já haviam sido superados, não é visto como um fracasso em si. Mas utilizado como material de aprendizado.
- Ainda que doloroso, o que as vezes é visto como regresso, o modelo apresenta como oportunidade de identificar dificuldades, compreender melhor os próprios limites e retomar o caminho da mudança, utilizando-se dos novos recursos já desenvolvidos.
Um caminho que pode ser construído com apoio
A mudança é possível, mas raramente acontece de maneira isolada. Alguém disse que: “Para haver alguma mudança, algumas coisas precisam mudar.” É importante contar com espaços de escuta e acolhimento profissional nesse percurso para a mudança.
Grupos terapêuticos como o “Rede de Escuta”, oferecem um ambiente onde experiencias podem ser compartilhadas com respeito, confidencialidade e anonimato, favorecendo reflexões e fortalecendo o processo de transformação.
O caminho da recuperação é único para cada pessoa, e cada etapa faz parte de uma construção que acontece ao longo do tempo.