Por que o dependente “quer e não quer” parar ao mesmo tempo?
“Eu quero parar, mas não consigo.” O que está acontecendo de verdade?
Essa frase aparece com frequência nos consultórios, nas conversas de família, às vezes em mensagens de madrugada.
E costuma ser interpretada de duas formas: ou a pessoa está mentindo, ou está fraca. Raramente é interpretada como o que realmente é: uma descrição clínica precisa de ambivalência.
O que é ambivalência, de fato
Ambivalência não é indecisão. Não é falta de caráter. Não é manipulação.
A ambivalência sobre mudar comportamentos relacionados ao uso de substâncias é algo natural. Interpretá-la como negação ou resistência é um equívoco que tende a gerar conflito entre o clínico e o paciente, o que é contraproducente.
A Entrevista Motivacional, desenvolvida por William R. Miller e Stephen Rollnick, é uma abordagem clínica voltada especificamente para ajudar pessoas a explorar e resolver essa ambivalência. O fato de existir uma abordagem terapêutica estruturada em torno dela diz algo importante: ambivalência não é um obstáculo ao tratamento. É o ponto de partida.
A pessoa que diz “eu quero parar, mas não consigo” está dizendo duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo. Não está sendo contraditória. Está sendo honesta sobre um conflito interno real.
Por que esse conflito existe no cérebro
Para entender a ambivalência na dependência química, é preciso entender brevemente o que acontece no cérebro com o uso continuado de substâncias.
O cérebro possui um sistema de recompensa que é ativado quando experimentamos prazer ou satisfação. As drogas ativam intensamente esse sistema, gerando sensações de euforia. Substâncias como a cocaína, por exemplo, aumentam os níveis de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer e à recompensa.
Com o uso repetido, o cérebro se adapta, tornando-se menos sensível à dopamina e exigindo doses cada vez maiores para alcançar os mesmos efeitos.
O resultado prático disso é que o sistema de motivação da pessoa fica, em parte, sequestrado pela substância. Não porque ela seja fraca. Mas porque o cérebro foi reorganizado em função do uso.
O consumo da droga gera memórias fortes, criando uma relação entre a sensação prazerosa e as condições ambientais do momento: o local, as pessoas, os objetos, até a via de administração. Isso explica por que situações aparentemente banais, um cheiro, um horário, um lugar, podem reativar o desejo com força desproporcional.
Nesse contexto, dizer “eu quero parar, mas sinto que não consigo” não é fraqueza. É uma descrição razoavelmente precisa do que está acontecendo neurobiologicamente.
O que sustenta o “mas”
A ambivalência tem dois lados, e ambos precisam ser levados a sério no trabalho clínico.
De um lado, o que empurra para a mudança: as consequências do uso, o sofrimento acumulado, os relacionamentos afetados, a percepção crescente de que algo precisa mudar.
Do outro, o que sustenta o uso: o alívio que a substância oferece, a função que ela cumpre (anestesiar a dor, pertencer a um grupo, lidar com o vazio), e o medo real do que vem depois da abstinência.
A ambivalência pode ser resolvida explorando as motivações intrínsecas e os valores do paciente. A aliança terapêutica é uma parceria colaborativa na qual cada parte traz uma expertise importante. NCBI
Isso significa que o trabalho não é convencer o paciente de que o uso é ruim. Ele já sabe. É ajudá-lo a entrar em contato com o que ele próprio valoriza e com o que o uso está custando em relação a isso.
O erro mais comum de quem está fora
Para a família, a ambivalência costuma ser lida como falta de seriedade. “Se ele realmente quisesse parar, já teria parado.”
Essa leitura é compreensível, mas clinicamente incorreta. E tem um custo alto: ela aumenta a pressão sobre alguém que já está em conflito, o que tende a aumentar a resistência, não diminuir.
Pressionar uma pessoa ambivalente a aceitar a mudança frequentemente resulta em recuo. Miller e Rollnick chamam o impulso de corrigir o paciente e prescrever soluções de “reflexo de retidão”, uma resposta problemática do clínico que tende a travar o processo. CCSA
O mesmo vale para familiares. Ultimatos, cobranças repetidas e confrontações diretas raramente produzem mudança. Na maioria das vezes, produzem defesa.
Isso não significa cruzar os braços. Significa entender que o momento e a forma da intervenção importam tanto quanto o conteúdo.
Quando a ambivalência começa a se mover
A ambivalência não é estática. Ela se move, às vezes lentamente, às vezes de forma abrupta, a partir de experiências que mudam o peso dos dois lados da balança.
Uma internação que afastou a pessoa dos gatilhos. Uma conversa que tocou em algo que importava. Uma consequência que tornou o custo do uso concreto demais para ignorar. Uma relação que entrou em risco real.
O trabalho clínico é criar condições para que esse movimento aconteça. Não forçar a conclusão, mas criar um espaço onde o conflito possa ser examinado sem julgamento.
Para que o paciente mude, ele precisa estar pronto, disposto e capaz de mudar. Essas três condições raramente chegam ao mesmo tempo, e é trabalho do clínico identificar onde está o obstáculo real. PubMed Central
O que muda quando a ambivalência é entendida como dado clínico
Quando a ambivalência deixa de ser vista como obstinação e passa a ser vista como fenômeno clínico, algumas coisas mudam.
O clínico para de debater com o paciente e começa a trabalhar com ele. A família para de interpretar recaída como prova de falta de vontade e começa a entender que o processo tem tempo próprio. E o próprio paciente, muitas vezes, consegue se enxergar com menos culpa e com mais clareza sobre o que está em jogo.
Isso não resolve o problema. Mas cria uma base diferente para o trabalho.
Referências
Miller, W. R., & Rollnick, S. (1991). Motivational Interviewing: Preparing People to Change Addictive Behavior. Guilford Press.
Miller, W. R., & Rollnick, S. (2013). Motivational Interviewing: Helping People Change (3ª ed.). Guilford Press.
Prochaska, J. O., DiClemente, C. C., & Norcross, J. C. (1992). In search of how people change: Applications to addictive behavior. American Psychologist, 47(9), 1102–1114.
SAMHSA (2019). Using Motivational Interviewing in Substance Use Disorder Treatment: Advisory. Substance Abuse and Mental Health Services Administration.